De que cor sou?
Sou branco. E também sou negro. Sou a luz que revela e a sombra que não se ajoelha. Sou branco e negro, porque há momentos em que a dúvida é um véu sobre o sangue, uma névoa sobre o destino, uma forma silenciosa de se trair para não incomodar o mundo. Não vim me diluir no que é cômodo, nos matizes do cinza que tudo suavizam e nada transformam. Não vim ser aceitável, nem aparar minhas arestas para caber no olhar dos outros.
Não vim ser talvez. Vim ser!
Sou raiz e voo, terra que não esquece sua origem, asa que não pede licença ao céu. Sou a voz que não se quebra mesmo que o vento a desafie, o passo firme sobre a corda bamba de um mundo que treme diante das próprias decisões. Sou determinação. E não me desvaneço. Não negocio minha alma para pertencer, nem mudo de forma para merecer um lugar. Minha luz não se desculpa. Minha sombra não se esconde. Ambas me habitam, ambas me nomeiam, ambas sustentam a verdade de quem deixou de fugir de si mesma. Não vim ser metade de nada, nem viver com o coração suspenso no limiar de todas as possibilidades. Há escolhas que nos fundam, verdades que nos exigem, caminhos que só se revelam quando deixamos de recuar. Eu vim ser sim ou não. Princípio e fim. Vida e morte. Tudo ou nada. Com a dignidade intacta de quem conhece o preço e, ainda assim, não se vende. Porque há tons de cinza que são sabedoria, mas também há tons de cinza que são medo disfarçado de prudência, renúncia vestida de equilíbrio, silêncio fingindo ser paz. E eu não quero essa paz que exige que eu me abandone. Prefiro o incêndio que revela o essencial, o gelo que preserva o inviolável, a paixão que não pede perdão por arder com sua própria força. Mas nunca, nunca a cinza morna de quem se consumiu tentando ser o que não era. Sou branco e negro. Não porque ignore a complexidade do mundo, mas porque aprendi que compreender tudo não significa renunciar a escolher. Que nem toda verdade admite concessões. Que nem toda porta merece ser atravessada. Que nem todo pertencimento vale o preço de deixar de pertencer a si. E se o mundo insiste em me perguntar de que lado estou, não buscarei refúgio na bruma nem esconderei meu nome entre matizes. Olharei de frente. Com a luz nos olhos e a sombra em paz. Porque não vim ser compreendida por todos, nem encontrar em cada olhar um lugar onde descansar. Vim me habitar inteira, sustentar minha verdade mesmo quando ela me deixar sozinha, caminhar sem me trair ainda que o caminho se estreite. De que cor sou? Sou branco. Sou negro. Sou a certeza de quem atravessou a dúvida e já não precisa disfarçá-la de destino. Sou o contraste, o limite, a escolha. Sou a chama que não negocia seu fogo. E se para pertencer eu tivesse que deixar de ser, prefiro o mundo inteiro contra mim a viver em guerra comigo mesma. Porque não vim me confundir com a paisagem. Vim deixar minha marca.