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Victoria Inaudi
Todos os poemas

O instante

Sussurrei ao teu ouvido, apenas um fio de voz, para que fechasses os olhos.

Enquanto minhas mãos se perdiam no teu cabelo, devagar, sem pressa, respirei o perfume do teu pescoço, como quem tenta guardar na memória algo que sabe irrepetível.

Tua respiração foi encontrando a minha. Dois ritmos que jamais haviam sido ensaiados e, no entanto, se reconheciam. E nesse encontro, algo dentro de nós se aquietou, como se o mundo, por uma vez, tivesse esquecido como girar.

Teu perfume, tua pele, a suavidade da tua barba roçando meu rosto… Tudo era presença. Tudo era instante. Não havia ontem nem amanhã, só esse território invisível que se abria entre nós dois.

Então te beijei.

Devagar, percorrendo com meus lábios os teus, deixando que nossas bocas aprendessem o idioma secreto da ternura, essa mistura de espanto e reconhecimento de quem teme interromper o milagre de estar ali.

Não havia urgência. Só o desejo de te descobrir sem arrancar do mistério suas respostas, de deixar que a noite se abrisse no seu próprio ritmo, sem pedir ao instante que fosse outra coisa.

Te trouxe para perto de mim e encontrei nas tuas pernas um lugar onde o tempo parecia parar.

Quis percorrer o caminho do teu corpo como quem atravessa uma paisagem desconhecida.

Minha boca desceu lentamente, parando em cada fronteira, enquanto minhas mãos aprendiam tua geografia, a delicada resposta da tua pele, a linguagem que teu corpo pronunciava muito antes das palavras.

Te observava com espanto, como se o desejo tivesse pela primeira vez uma forma visível e eu pudesse contemplar seu nascimento.

Havia em mim uma força incontível, um impulso que vinha de algum lugar anterior ao pensamento. Queria me aproximar mais, apagar a última distância, sentir que não restava entre nós nenhuma fronteira que precisasse ser defendida.

E então aconteceu:

parei de pensar.

Fechei os olhos e a escuridão se tornou infinita. Não era ausência de luz, mas um céu sem bordas, um universo se desdobrando atrás das minhas pálpebras.

Senti que o coração, com toda a sua imensidão, enfim encontrava um lugar onde se expandir sem medo.

De vez em quando abria os olhos para te olhar.

E ali estavas, também suspenso nesse infinito, com o olhar perdido em alguma parte onde já não existiam as explicações.

Extasiado. Em pausa. Rendido ao mistério.

Não queríamos nos mover. Queríamos deixar que aquilo acontecesse, que a imensidão fizesse seu trabalho, que nos mostrasse o todo e o nada, o caos sagrado que habita no centro de todas as coisas.

Escutar nossos corações era mais importante que qualquer movimento. Sentir tua respiração dentro da minha, a tua encontrando refúgio no meu peito, era suficiente.

Te levava dentro de mim e, ao mesmo tempo, sentia que algo de mim havia se perdido para sempre em ti.

Não como quem desaparece, mas como quem descobre que também pode existir fora dos próprios limites.

Depois, inevitavelmente, os corpos reclamaram sua linguagem. O desejo voltou a se acender, e começamos a nos mover como se uma música secreta tivesse começado a soar sob nossa pele.

Ninguém guiava. Ninguém decidia. Éramos duas vontades que deixavam de sê-lo, duas marés aprendendo a se encontrar, arrastadas por uma corrente antiga que não precisava de nomes.

Nos deixamos levar, enfeitiçados, em direção a essa borda onde o prazer deixa de ser somente corpo e se transforma em vertigem, em abandono, em uma forma inexplicável de liberdade.

Até que, de repente, meu coração pareceu parar.

Um instante.

Um silêncio absoluto no centro da tempestade.

E então chegaram as marés, com toda a sua força, rompendo dentro de mim as últimas margens.

Fechei os olhos.

Houve uma luz branca, imensa, e depois uma paz que não se parecia com nada que eu conhecesse.

Por um segundo, não fui mulher, nem corpo, nem pensamento.

Fui apenas consciência, suspensa em um lugar sem tempo, onde nada faltava e nada precisava acontecer.

Às vezes imagino que a morte deve se parecer com isso: um instante, um suspiro, a luz abrindo caminho por todas as frestas, e depois, a invasão serena de uma paz que já não precisa de explicações.

E quando voltei à terra, ao teu corpo, à tua respiração, à noite que continuava ali, compreendi algo que ainda não sei nomear:

que existem encontros em que não fazemos amor somente com a pele, mas também com aquilo que em nós não tem forma.

Que às vezes dois corpos se encontram e, por um instante, o universo deixa de ser imenso porque cabe inteiro no espaço que os separa.

E que há noites em que tocar alguém é apenas outra maneira de roçar o infinito.

Victoria Inaudi

Victoria Inaudi