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Victoria Inaudi
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Desarmar-se

Soltar a lança que já não aponta, o escudo que pesa mais que o golpe, a armadura enferrujada de antigos medos. Deixá-la cair, como cai uma folha madura sem lamento nem drama. Apenas cai. Desarmar-se não é se render. É lembrar que fomos pele antes de sermos couraça, olhar antes de sermos julgamento, pulsação antes de sermos palavra.

É deixar de confundir a força com a dureza, a liberdade com a fuga, o amor com a luta. É compreender que nem tudo o que nos fere merece uma batalha, que nem toda distância é abandono, que nem toda despedida é uma perda. Às vezes, a vida não nos pede que resistamos mais, mas que deixemos de resistir a ela. Que abramos as mãos. Que baixemos a guarda. Que permitamos ao outro ser quem é, sem transformá-lo em inimigo por não saber nos amar como esperávamos. E então, lentamente, por baixo de tantas defesas, voltamos a nos encontrar. Não mais fracos. Mais verdadeiros. Porque há uma forma de coragem que não precisa vencer ninguém, mas como quem compreendeu que nunca deveria ter vivido em guerra. E nesse silêncio que fica quando já não há nada a defender, algo antigo desperta. Uma ternura sem objeto, uma calma sem explicação, uma maneira de estar no mundo que não precisa se antecipar à dor. Respiramos. E pela primeira vez em muito tempo, não buscamos sinais de perigo nos olhos de quem nos olha, nem despedidas escondidas nas palavras de quem nos ama. Deixamos que o outro se aproxime sem lhe exigir promessas, que se afaste sem persegui-lo, que nos queira sem transformar esse amor na medida do nosso valor.

Porque também é preciso se desarmar da fome de sermos escolhidos, da urgência de sermos compreendidos, desse velho costume de oferecer tudo para que ninguém encontre razões para ir embora. É preciso se desarmar até da esperança quando a esperança se torna espera, quando deixamos nossa vida suspensa no limiar de uma porta que alguém não termina de abrir. E aceitar. Não com resignação, mas com essa sabedoria silenciosa de quem compreende que amar nem sempre significa ficar, e que soltar alguém não significa deixar de amá-lo. Às vezes, significa deixar de se abandonar para que o outro não vá embora. Então recolhemos nossa vida, pedaço por pedaço, como quem volta a habitar uma casa que ficou vazia por tempo demais. Abrimos as janelas. Deixamos o ar entrar. Voltamos a ouvir os pássaros, a sentir o sol sobre a pele, a reconhecer nosso próprio desejo. E descobrimos que por baixo da armadura não havia apenas uma ferida. Havia também uma mulher, um homem, um ser humano esperando voltar a viver. Sem tanta defesa. Sem tanta explicação. Sem a necessidade de ter razão sobre tudo o que doeu. Porque talvez amadurecer seja isso, deixar de pedir ao passado que nos devolva o que perdemos e começar a nos perguntar o que podemos fazer com todo o amor que ainda nos resta. Desarmar-se, no fim, é um ato de retorno. À pele. À presença. À verdade nua do que somos. É compreender que não viemos a esta vida para construir uma fortaleza inexpugnável, mas um lugar onde a alma possa descansar. E que, às vezes, o gesto mais profundo de amor não é abrir os braços para reter, mas abrir as mãos e permitir que a vida siga seu curso. Conosco dentro. Inteiros, enfim.

Victoria Inaudi

Victoria Inaudi